domingo, 16 de fevereiro de 2020

Potencial de estrago econômico do coronavírus supera o de surtos passados

São Paulo — Apesar de o coronavírus identificado em dezembro na China ser menos mortal, seu potencial de estrago econômico ultrapassa em alguma vezes o efeito de doenças semelhantes que assustaram o país no passado.

Segundo estudo da Bain & Company disponibilizado com exclusividade a EXAME, o custo do 2019-nCov, como é chamado oficialmente o novo vírus, pode ultrapassar US$ 70 bilhões (500 bilhões de renminbis) para a China, o que indica uma redução de até 0,5% do PIB, superior à de todos os surtos anteriores.

A Bain também ressalta em relatório a expectativa de queda de curto prazo nas exportações com efeito cascata global. “As empresas multinacionais precisarão compensar as lacunas nas compras e manufatura da China e até de fornecedores externos à China que dependem de seus produtos”, diz.

O Banco da China Internacional estima que o impacto a curto prazo nas exportações custará US$ 30 bilhões, destaca o estudo.

O atual surto já matou mais de 1.380 pessoas (grande parte na China) e contaminou ao menos 63.581 em 24 países.

É constantemente comparado com o da Sars (sigla em inglês para síndrome respiratória aguda grave), também causada por um coronavírus, e que foi encarada como a primeira transmissível grave do século XXI, tendo infectado 8 mil pessoas de 12 países e matado 800 no começo dos anos 2000.

A taxa de mortalidade da Sars era de 6,6%, muito acima dos 3% remetidos ao 2019-nCov. Seu impacto na economia chinesa, porém, se limitou ao segundo trimestre de 2003. No período, a taxa de crescimento do PIB caiu 2 pontos percentuais, mas depois se recuperou durante o restante do ano. Mesmo assim, reduziu o PIB da China em quase 1% ou aproximadamente 100 bilhões de renminbis.

Apesar de a porcentagem remetida à Sars ser maior, o valor do impacto cresce junto com o tamanho da economia chinesa, que foi de 13,74 trilhões de renminbis em 2003 (4% do PIB global) para quase 100 trilhões de renminbis (16% do PIB global) hoje.

O setor de serviços, segundo destaca o estudo, foi o que mais sofreu, com destaque para os segmentos financeiro, de transporte e hospitalidade / alimentos e bebidas. Caiu 3 ou mais pontos percentuais do primeiro para o segundo trimestre de 2003.

As indústrias secundárias, como de construção, também foram duramente atingidas, enquanto as indústrias primárias, em grande parte agrícolas, foram apenas modestamente afetadas.

Alguns dos setores mais atingidos, no entanto, se recuperaram rapidamente, principalmente os segmentos de hospitalidade / alimentos e bebidas e transporte. Outros, incluindo educação, serviços financeiros, turismo e entretenimento, por outro lado, levaram até o quarto trimestre ou até mais para se recuperar, diz o levantamento.

Os mercados de capitais também demoraram para voltar à normalidade: as ações Hong Kong caíram 8% a 10% durante os nove meses de surto de Sars, e o índice do mercado de Hong Kong continuou em queda até o final de 2003.

Pontos animadores

As previsões mostram um impacto econômico grave das duas epidemias, impulsionado pelas ações de contenção em todo o país. Desta vez, porém, a Bain diz que o governo chinês agiu com mais rapidez e com medidas muito mais rigorosas, como uma quarentena generalizada, feriados nacionais prolongados, restrições às viagens em cerca de 20 províncias e controles locais de transporte.

Esse cenário pode ajudar autoridades a encontrar uma forma mais rápida de bloquear a disseminação da doença, como aconteceu no fim da epidemia de Sars em 2003. Os cientistas ainda não conseguiram fazer uma vacina contra os coronavírus, que parecem estar em constante mutação.

Apesar de ainda não estar controlado o surto, o número de contaminações registradas diariamente na China “está se estabilizando”, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), que registra “um período de estabilidade de quatro dias”.

Outras diferenças entre o mundo hoje e há 20 anos podem ajudar a mitigar os danos econômicos. A China de hoje é uma potência na Internet e no comércio eletrônico, explica a consultoria.

“Redes robustas de entrega offline para online podem ajudar a aumentar o consumo, mesmo com milhões de chineses em quarentena ou em feriados prolongados. Muitas dessas pessoas também podem continuar trabalhando remotamente, pelo menos compensando parcialmente as perdas de produtividade”, diz.

Histórico

O primeiro alerta sobre o 2019-nCovfoi foi recebido pela OMS em 31 de dezembro de 2019. Um mês depois, a organização decretou emergência de saúde pública no mundo todo, em 30 de janeiro.

Acredita-se que a pneumonia atípica seja causada por um novo tipo de coronavírus transmitido por animais para humanos na província chinesa de Guangdong.

No caso da Sars, primeiro caso apareceu em novembro de 2002, também em Guangdon, mas só foi identificado três meses depois, em 11 de fevereiro de 2003. Naquele momento, já havia cinco mortes confirmadas pela China e 300 contaminações. Somente em 12 de março veio o alerta mundial da OMS.

O surto conseguiu ser controlado no mundo quatro meses depois, conforme comunicado da organização de 5 de julho. 

Abaixo, é possível ver como foi longo o processo de combate à epidemia de Sars.

As informações da linha do tempo foram compiladas em 2004 por um trabalho da Universidade portuguesa de Évora, intitulado “A primeira doença grave transmissível do séc. XXI“.

 


Potencial de estrago econômico do coronavírus supera o de surtos passados publicado primeiro em https://exame.abril.com.br/

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